sexta-feira, 28 de junho de 2013

TURMA DA MÔNICA - LAÇOS

Minha edição - capa dura - de "Laços".


Quem já leu o blog de Vitor Cafaggi [Puny Parker] ou o blog da Lu Cafaggi [Los Pantozelos] não se surpreenderá com a qualidade gráfica e narrativa de "Turma da Mônica - Laços". Tudo é muito sutil, inteligente, delicado e lindo!
A história parte de uma ideia simples: Floquinho - o cachorro do Cebolinha - sumiu. E para encontrá-lo, o menino "vai embarcar com seus amigos em uma grande aventura com altas confusões". Se isso te lembrou "Sessão da Tarde", não foi mera coincidência, pois a semelhança com o filme "Conta Comigo" [Stand By Me, 1986] é bastante clara. Faz pensar em "Os Goonies" [The Goonies, 1985] e, sem contar a referência ao filme "Os Selvagens da Noite" [The Warriors, 1979].
Ah, e sem contar a referência a um personagem de uma certa "vila mexicana"!!
"Laços" bebe, e muito, do clima dos filmes dos Anos '80, mas sem fugir da sua própria mitologia. Lá, você verá personagens secundários; vestuário diferente do que estamos acostumados; vestuário de outras histórias; e até "explica" o motivo das crianças, com exceção do Cebolinha, não possuírem sapatos.

Vitor e Lu Cafaggi conseguem, com maestria, nos envolver na história. Prova disso é que rimos das já tão conhecidas confusões, "planos infalíveis" e coelhadas. E nos emocionamos com o primeiro encontro entre Cebolinha e Floquinho; a dor que ele sente quando seu cãozinho some; a partilha dos quatro amigos em volta da fogueira; e o primeiro encontro da turminha na creche.

Em "Astronauta - Magnetar" de Danilo Beyruth, o primeiro volume da série Graphic MSP, foi aprofundado a maior característica do Astronauta, a solidão. Em "Laços" a principal é a amizade. E lá, veremos a Amizade em seu estado mais puro. Primeiro, entre Cebolinha e Floquinho. Difícil não se encantar com o momento em que ele ganha seu cãozinho, quando os dois ainda eram bebês. E, segundo, pelos laços que unem Cebolinha, Cascão, Mônica e Magali. Mostrando que, mesmo com algumas diferenças e até briguinhas bobas, os Amigos sempre estão ali por nós quando precisamos.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

AMIGO FIEL

Você, meu Amigo, que sempre me escuta sem nunca me interromper. Que conhece meus segredos mais profundos e nunca os revelou. Sabe dos meus defeitos e os meus pecados – aqueles que não tenho coragem de falar em voz alta, pois me envergonho –, e me aceita assim mesmo.

Meu Amigo, você ouviu minhas gargalhadas quando encontrei meu Amor, e enxugou e absorveu minhas lágrimas quando esse mesmo Amor foi embora [é, eu sei que carrega em teu peito as manchas das minhas lágrimas que derramei sobre ti]. E tornou a ouvir meu sorriso bobo quando me apaixonei novamente.

Nas minhas noites insones, ouve minhas lamentações, meu resmungos, e nunca se aborrece quando, nos meus “dias de lua”, vou dormir sem te desejar “boa noite!”. E se estou alegre ou triste, sempre encontro o aconchego do teu colo.

Você assiste de perto todos os meus sonhos, e deve rir-se de mim quando sonho bobagens, ou coisas absurdas e deliciosas como os sonhos de criança.

A você, meu Amigo, eu tenho uma imensa gratidão, porém, sei que não costumo te dizer o que representa pra mim. Mas quando nos abraçarmos, repara bem na batida do meu coração e sentirá que não é um “tum-tum” ritmado. Não. É um “tum-tum” louco, acelerado, que só fica assim quando estou próximo daqueles que amo. Portanto, caro Amigo, sinta-se amado por mim.

Talvez, eu não diga isso com freqüência, mas saiba que é verdadeiro: Você é muito importante pra mim, caro Amigo travesseiro!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A CHUVA


Lá fora chove.
E aqui dentro, eu choro.
A chuva lava a janela do meu quarto.
As lágrimas lavam a janela da minh'alma.

A chuva me acompanha em meu choro.
Eu choro. Ela chove
O céu chora um choro cristalino.
Meus olhos chovem uma chuva amargurada.
Lá fora é choro.
E eu... Sou chuva.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

DR

- Diz pra mim um defeito meu.
- Hã?!
- Me diz um defeito que eu tenho.
- Ah, ‘cê não tem.
- Claro que tenho! Me diz, vai. Só um.
- Mas meu amor, eu não vejo nenhum defeito em você.
- Oww... Por favor, me diz. Como seria a namorada perfeita pra você?
- Amor, você É perfeita pra mim. Agora vamos prestar atenção, pois já vai começar o segundo tempo.
- Mas eu tenho defeitos, ora!
- Eu não acho.
- Tenho sim!
- Ah, então não precisa que eu lhe fale.
- Claro que precisa! Afinal, eu preciso saber o que, em mim, incomoda você.
- ‘Cê tem cada uma...
- Sinceridade e transformação são essenciais para um relacionamento duradouro. Me diz só um. Unzinho.
- Não. Não vou comprar briga com você.
- Mas não vamos brigar. Isso chama-se exercitar a sinceridade e aceitação de seus próprios defeitos através de um diálogo claro.
- Não vou falar nada. Não quero brigar nem magoar você. E o jogo já começou.
- Por favor! A gente precisa conversar, sabia?
- Sim, claro. Mas podemos fazer isso depois do jogo.
- Amor... Por favor! Como deve ser a mulher ideal pra você?
- Ok! A mulher ideal pra mim tem que ser muda.
- ...

CAMINHADA

- Vamos continuar?
- Não sei. Às vezes, eu penso em parar.
- Não. Não. Essa é a última coisa que devemos fazer. Parar, só quando chegar a hora.
- E se já for a hora?
- Quem disse que é?
- E quem disse que não?
- Bom, eu vou continuar. E se eu fosse você, faria o mesmo.
- Não sei...
- Vamos lá. Temos que seguir em frente... Vamos fugir da Morte!
- Mas ela não corre atrás da gente. Pelo contrário, ela fica lá na frente, só esperando. Pacientemente. E, quando chegamos – ZUM! –, já era.
- Poxa, você REALMENTE quer ficar, hein?
- É. Já não vejo tantos motivos pra continuar.
- Então, nos despedimos aqui. Tchau!
- ... Ei... Me espera, eu vou.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

PRIMEIROS PASSOS

Ele se apoia na parede e, lentamente, se põe de pé.
Fica na mesma posição por alguns segundos. Talvez, acostumando os pés e as pernas a essa nova posição [a que ele ficará grande parte da sua vida]. Arrisca o primeiro passo. Devagar.
Primeiro passo vencido. Segundo passo. Terá que se afastar da parede e parece ponderar isso. Pé ante pé, ele consegue dar seus primeiros passos. Ops! Caiu!
Olha para os lados, um pouco desconcertado, mas como não tem ninguém por perto olhando, não adianta chorar. Então, é levantar novamente.
Observa seus pés, como que querendo entendê-los. Tenta, a sua maneira, dialogar com eles. Quer ter a certeza que lhes sustentarão [mal sabe ele que, será dependente de seus pés a partir do momento que conquistar os primeiros passos]. Os pés – também a sua maneira – indicam que estão com ele para o que der e vier.
Procura o apoio mais próximo para se reerguer. Os pés protestam, dizem que ele já não precisa disso. Basta querer levantar, afinal, é pra isso que eles servem. Com algum esforço, se levanta.
Um pé à frente, depois outro, outro e mais outro. A excitação é inevitável! Olha para baixo, e se mostram satisfeitos, sabem que o estão impressionando. É um feito fantástico se locomover nesta nova posição: Em pé!
Sem muito jeito, olha para o lado e vê seus brinquedos. Devagar, muda de direção [é realmente fantástico poder ir para aonde quiser!]. Pé ante pé vai até os brinquedos. Porém, percebeu que os brinquedos estavam muito próximos.
Não, ele sente que, com sua curiosidade – e seus pés –, pode explorar outros lugares. Pode ir mais longe.
Pronto, foi selado um pacto entre eles.

Ele irá conhecer a casa e, em breve, o mundo. Pé ante pé.

domingo, 2 de junho de 2013

TODOS QUEREM DIZER/OUVIR "EU TE AMO!"

Ele chegou preocupado em sua casa. Não sabe bem ao certo por que falou aquela maldita frase justamente naquele momento. Queria encontrar uma explicação para aquilo, mas não chegava a nenhum argumento plausível. Agora que falou, sabia que iria ter que aguentar as conseqüências.

Em mais de quinze anos de vida sexual ativa, aquela foi a primeira vez que disse “eu te amo!” durante o sexo.

Na verdade, tudo não passou de um impulso. Quando estava próximo ao orgasmo, sentiu uma vontade incontrolável de dizer algo, então, resolver dizer “eu te amo!”. Mas ele sabia que foi um erro terrível, pois esse tinha sido o segundo encontro deles, e a primeira vez que foram para a cama. Com certeza, no dia seguinte ela iria ligar para ele querendo saber por que ainda não tinha ligado para ela. E pior, usando aquela vozinha dengosa de gente apaixonada. E pior ainda, chamando-o de “mô”! Não, não. Ele não poderia entrar numa dessas, e já sabia o que deveria fazer: Iria deixar o celular desligado por, pelo menos, três dias. Assim, ela iria se cansar de tentar falar com ele. Pronto, resolveu o problema! Sorte ele ser um cara tão esperto.

Se sentiu mais calmo e o sono logo veio.

Enquanto isso, ela, em seu apartamento, apagava o nome dele do seu celular.

- Um homem que diz “eu te amo!” pra uma mulher, na primeira vez que vai pra cama com ela, só pode ser louco! Acho que vou mudar o número do meu celular...

sábado, 1 de junho de 2013

O HOMEM INVISÍVEL

Ele sai de casa às quatro e meia da manhã todos os dias. Uma hora depois, chega ao seu destino. Veste a sua farda, depois toma um cafezinho para espantar o frio e a fome [como sai muito cedo, não dá tempo de tomar o café da manhã em casa]. Inicia sua jornada de trabalho na portaria, às seis.

Os moradores do prédio começam a sair de seus apartamentos por volta das sete ou sete e meia. Com o seu habitual sorriso, deseja "bom dia!" a todos que passam em seus luxuosos carros, mas somente os que estão com os vidros abaixados podem ouvir, e ainda sim, não respondem. Ele não se importa, pois sabe que está fazendo a sua parte, e no dia que parar de desejar "bom dia!", será chamado à atenção pelo síndico.

Os outros companheiros de trabalho o acham um tolo, por continuar a falar com essas pessoas que nunca respondem, mas ele insiste dizendo que está fazendo a sua parte.

Carro após carro vai passando pela portaria.

- Bom dia, Dr. Orlando! – diz e acena discretamente.

O Dr. Orlando continua olhando para frente, não responde e mantém as mãos fixas no volante.
“Ele é um advogado muito ocupado, não tem tempo pra prestar atenção em outras coisas. Talvez, não respondeu por isso.” Pensa.

- Bom dia, dona Carla!

A dona Carla não responde e nem olha para ele. Grita com seus filhos que estão fazendo bagunça dentro do carro, e segue em frente.
“Essas crianças não deixam ninguém conversar.” Justifica para si.

- Bom dia, Roberta!

Mas a empregada do 1982 passa pela porta e não lhe dá a menor atenção. E ele fica tentando descobrir o que é que deixa as pessoas assim, pois quase todos os funcionários tendem a agir como seus patrões.

- Tenha um bom dia, dona Silvia! – fala alto e acena, pois dona Silvia está com os vidros fechados.
- Deixa de ser besta, homem! Esse povo nem repara em você. É como se você fosse invisível. – adverte o jardineiro que o observava falar com todos que passaram por lá.
- Não. Nada melhor que desejar “bom dia!”. Eles podem até não saber, mas isso realmente melhora o dia deles.
- Sei. Pois, boa sorte, Homem Invisível! – debochou o jardineiro.

E todos os dias em seu trabalho são iguais, deseja os seus “bom dia!” e mesmo sem obter resposta, mantém o sorriso no rosto.


“Ótimo dia trabalho pro senhor, seu Carlos!”; “Boa aula, professor!”; “Até mais e um bom dia, seu Pedro!”; “Boa aula, crianças!”; “Bom dia, Dra. Rita!”; e todos passam sem responder, acenar ou sequer olhar para ele.

Dia após dia a mesma coisa, e os outros funcionários do prédio chamando-o de Homem Invisível, porém, nada disso o incomoda.
Um dia, terminara o seu horário de trabalho e ele se preparava para ir embora, quando, passando pela portaria, cruzou com uma moradora e sua filhinha, desejou-lhes boa noite e seguiu.

- Boa noite, João! – respondeu a menina, sorrindo e acenando para ele.

João parou, olhou mais um pouco para aquela criança e foi embora para casa mais feliz que o habitual. E as pessoas que o viam na rua, ficavam curiosas por ver que aquele homem sorria sem um motivo aparente. E ao perceber que todos olhavam para ele, João sorriu mais ainda e disse:

- Não, eu não sou invisível!

DIÁLOGO

O “tic-tac” do relógio ‘tá começando a incomodar. A comida ‘tá gostosa, mas não sei por que tinha que ser desse jeito. Ela poderia muito bem deixar um prato feito pra mim e pronto. Nada de jantar a luz de velas. Caráca, essas velas ‘tão me sufocando!

Nossa! Nós estamos apenas comendo e não conversamos nada. Será se ele reparou que eu cortei meu cabelo? Talvez eu puxe assunto... Mas falar o quê? Do meu cabelo que ele não reparou? Está com um olhar tão perdido...

Não sei por que ela insiste em tentar salvar nosso casamento. Não tem mais o que salvar. Argh! O cheiro dessa vela me sufoca.

Ele é tão bonito! Será se tem alguma mulher interessada nele? Ou pior, será se ele está interessado em alguma mulher? Nós ainda somos jovens, não precisamos terminar assim. Até parece que nós nunca nos amamos.

Não sei por que eu ainda participo dessas coisas. A gente não tem mais nada a ver um com o outro. Eu preciso sair dessa casa, preciso começar uma vida nova. Tenho que mudar isso, senão, vamos continuar na mesma: dois estranhos sentados à mesa.

Eu sou uma boba mesmo, ele abre a boca somente para comer. Já deve estar cansado disso tudo.

Eu deveria elogiar a comida. Sei que ela se esforça, mas não é por má vontade, apenas não dá mais ficar nisso.

Hum. E se eu tivesse pintado de vermelho, será se ele iria notar? Com certeza, não. Ele não me nota, sou praticamente uma estranha para ele.

Ela ainda é bonita. Ah, mas não faz tanto tempo assim que a gente ‘tá casado. Nossa, nem lembro mais como é o sorriso dela! A gente já não passa muito tempo junto. Talvez eu devesse conversar mais com ela.

Acho que vou pedir o divórcio. Não adianta ficar com uma pessoa que não dá a mínima para você. Faço de tudo para manter nosso casamento, mas ele nem percebe.

Tanta coisa que tenho para dizer pra ela, mas sempre fico calado. Sei que sou o culpado por a gente estar assim. Ah, como eu queria ser mais claro com os meus sentimentos. Pensando bem, não quero ir embora, afinal, eu ainda gosto dela.

A quem eu estou querendo enganar? Eu não consigo ir embora. Ele é que deveria ir embora. Tanta coisa que não foi dita entre nós. Vamos terminar assim. Ele não me diz o que está pensando e nem eu digo para ele o que tudo isso me causa.

Ela é linda! É inteligente, e sempre tem algo divertido pra dizer. Se bem que, nunca mais rimos juntos. Nunca mais fizemos um monte de coisas juntos. Não posso perder uma mulher assim.

Acho que seria melhor se nós conversássemos sobre tudo isso, talvez, as coisas mudassem. Mas homem nunca gosta de conversar sobre a relação, e ele então, nunca conversa sobre nada.

Tenho que conversar com ela e dizer o que sinto. Não posso perdê-la só porque sou um babaca que não consegue deixar as coisas claras. Ai, mas é difícil. Mas tenho que dizer algo!

- O jantar ‘tava bom.
- ‘Brigada.
- É... Eu já vou deitar. Boa noite.
- Boa.

PADRÕES

E ele disse:

"Não! Eu não vou seguir padrões!"

COTIDIANO

Ora, eu não tenho mais idade para essas coisas! Mas ele insiste!

Sei que ainda sou bonita, mas não sou nenhuma moçoila para ficar nesse tipo de situação.

Todos os dias ele passa aqui na calçada, tosse alto, cumprimenta alguém do outro lado da rua e para ao lado da minha janela. A da sala, pois a janela do meu quarto dá para o quintal. E eu não lhe daria tanta liberdade assim se minha janela do quarto fosse de frente para rua.

Fica lá parado até eu aparecer para mandar-lhe sair. Deseja-me “bom dia!” com um sorriso cheiro de dentes – provavelmente falsos – fingindo que não me ouviu e que não percebe meu mau humor. Não respondo. Sorri mais uma vez e diz: “Bom dia, Dona Aurora! Como sempre a senhora continua jovem!”. Minha vez de fingir que não escuto, afinal, não posso dar liberdade.

Ele puxa conversa falando sobre a carestia das coisas, e eu apenas lhe respondo:

- Apesar de minha aposentadoria ser pouca, não sou uma mulher de luxo, e o que ganho ainda dá para comprar minha comida e meus remédios.

Ele solta um galanteio dizendo que, com certeza, jovem como sou, não preciso de remédios. Abusado. Mal sabe esse sujeitinho que se não fossem meus remédios, já teria morrido de tanta dor nas costas.

Fica por lá mais um instante e depois se despede dizendo que vai visitar outros amigos. Sei... Com certeza deve ir para alguma casa de favores. Um velho daqueles! Deveria se envergonhar, isso sim!


À noite ele passa de volta. No exato momento que estou sentada na calçada. Pára, e sem a menor cerimônia, puxa uma cadeira e se senta. Abusado.

Já pensei em não mais sentar na calçada, se ainda o faço é por consideração às minhas comadres que gostam da minha companhia.

Continuo sentada, mas tento ignorar ao máximo a presença irritante desse velho. Porém, abusado do jeito que é, fica falando comigo o tempo todo. Com aquele sorriso frouxo, fica questionando como é que eu consigo morar sozinha em uma casa tão grande. Respondo que, se Nosso Senhor levou meu marido e nunca me deu filhos, é porque quer que eu more sozinha mesmo. Aí ele diz todo se insinuando: “Ah, mas a senhora deveria, pelo menos, alugar um de seus quartos. Assim não ficaria só, o que é bom para a sua segurança, e ainda ganharia alguns mil-réis”.

As comadres percebendo que essa conversa sempre me aborrece, vão logo se levantando, desejam-me “boa noite!” e vão para as suas casas. Ele – como sempre – se oferece para guardar as cadeiras. Digo que não precisa, mas mesmo assim, ele as guarda só para entrar na minha casa. Como quem nada quer, comenta que a noite está fria e que só um cafezinho mesmo para espantar o frio. Ofereço-lhe café [só por educação] e ele vai logo sentando no sofá. Abusado.

Comenta mais uma vez que eu deveria alugar um quarto. “Eu mesmo, por exemplo, pagaria por um, afinal, há tempos que penso em sair daquele quartinho alugado lá da Rua dos Remédios”, fala todo pomposo.

Mal termina seu café e eu já pego logo a xícara da sua mão, abro a porta da rua e lhe dou “boa noite!”.

“Não quero tomar o tempo da senhora mais que já tomei. Mas pense sobre o aluguel do quarto. Passar bem!”, diz querendo parecer um cavalheiro. Sorrio-lhe só por educação.

Ele sai. Eu vou para o meu quarto.

Deito-me e me pego desejando que o dia seguinte venha logo, e eu possa vê-lo fazer tudo de novo.

VIM-ME EMBORA DE PASÁRGADA

Vim-me embora de Pasárgada
Lá não adianta ser amigo do Rei
Nem mesmo com a mulher que eu quis
Na cama que escolhi

Vim-me embora de Pasárgada

Vim-me embora de Pasárgada
Lá também eu não era feliz
Lá a existência é uma loucura
De tal modo intransigente
Que Joana a Louca de Espanha

Rainha, porém, não tão demente
Nunca foi contraparente
Da nora que nunca tive

Era impossível fazer ginástica
E andar de bicicleta
Caí montando burro brabo
E escorreguei do pau-de-sebo
Quase me afoguei no mar!
E depois de tudo, já muito cansado
Deitei na beira do rio
Chamando Mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vim-me embora de Pasárgada
Em Pasárgada falta tudo
Nem parece uma civilização
Sem um processo seguro
De impedir concepção
Telefones são quebrados
Ah, alcalóide tem sim, à vontade!
Prostitutas bonitas também tem
Para a gente... err... namorar

E é claro que fiquei triste
E triste de não ter jeito
E à noite me deu
Vontade de me matar
— Lá não adianta ser amigo do rei —

Nem mesmo com a mulher que eu quis
Na cama que escolhi

Vim-me embora de Pasárgada.


[da série "Desconstruindo Grandes Poemas". A partir do poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada" de Manoel Bandeira]

LEMBRANÇAS DE UMA NOITE INFINITA

Estavam os dois deitados no chão contemplando o céu.
Com uma mão faziam carinho um no outro. Com a outra mão espantavam os mosquitos.

- Aqui 'tá cheio de muriçoca.
- Nome bonito...
- O quê?
- Muriçoca. É um nome bonito.
- Hum.
- Mu-ri-ço-ca. Lembra: pa-ço-ca.

Ele virou-se para ela e olhou firme em seus olhos. Olhos que refletiam a luz da lua. Refletiam também uma doçura, inocência e ingenuidade que faziam parecer pueril aquele comentário bobo.
Os dois riram.
Sentiu que estava sendo invadido por um amor tão profundo e intenso que atravessaria os tempos. Então, apertou com força a mão dela.

EU SÓ QUERO QUE

Alô. Hã? Nossa, você?! Não. É qu'eu 'tava justamente pensando em te ligar. Ah, sabe como é... Hum. Sei lá. Acho que é solidão. Apesar de não me preocupar com isso, mas tem dia que. Sabe como é...
Não, não se trata de sexo. Ou melhor, não é só sexo. Claro qu'eu quero fazer sexo. Mas eu quero mais. E tem dia que. E esse "mais"? É, eu quero com você. Tudo com você sempre é melhor. 'Tá, nunca consegui evitar ser meloso. Mas você gostava . Eu lembro. Engraçado... Falar em "lembrar" dá a impressão que esqueceu e um dia PÁ!, veio. Acho que o correto deve ser "eu penso". Assim fica a ideia de algo constante.
O "mais" qu'eu quero? Ah, sim, já 'tava divagando. Você se divertia quando eu divagava. Tem razão, isso era antes.
No fim das contas, o que aconteceu com a gente, hein? O que restou?
Ah, claro, o "mais". Claro! Bom, acho que muito mais do que sexo, eu quero a tua alma. Isso! Tua alma!
Como assim 'tou falando parecido com o diabo?!
O qu'eu quero dizer é que quero fazer amor com a tua alma.
Eu não tenho alma?!
Não diz isso! Claro que tenho. Sabe como é... Eu só, às vezes, sou meio que.
Sabe o qu'eu penso? Que você nunca foi minha. 'Tou certo, né?
Preciso de ti.
Eu sei, eu sei. Eu lembro muito bem que naquele dia disse que não precisava de ninguém pra ser feliz e bati a porta. E realmente não preciso. É só que.
Olha, só preciso de ti e pronto. Não precisamos filosofar ou discutir o sexo dos anjos e.
Não, eu não só falo em sexo, p#rra!
Ok, ok, me desculpa, por favor. Sim, eu sempre sou estúpido. Mas tenta se colocar no meu lugar, poxa. Eu só quero que.
Mas você deve 'tá sentindo falta também, afinal, foi você quem ligou.
Hã?! Você o quê?! E pra que diabos você me ligou pra dizer isso?! Como assim é melhor saber pela sua boca do que pela boca dos outros?! Pois eu preferia saber pela boca do demônio!!! Uma notícia dessas nunca vai deixar de ser ruim, caramba!!
Não! Eu não sei como é!
Hein? Desligar? 'Tá. Tchau. Hã? Ah, certo, adeus...

Tudo o qu'eu queria era que.

ENCONTRO

O "olá!" é dito sem o entusiasmo de outrora. Não parece haver interesse nas perguntas. Tudo é mecânico... "Como vai?"; "E o trabalho?"; "'Tá tudo bem?"... Apenas cumprindo uma formalidade.
Por fim, a conversa se resume ao valor do cartão de crédito que deverá ser pago até o final do mês.
E o "tchau" é falado com alívio...

VAZIO

Ele não entende por que as pessoas sofrem tanto por amor! No seu caso, por exemplo, sempre resolveu isso bem. Afinal, soube preencher sua vida com muitos vazios.
Noites insones em festas barulhentas, regadas a beijos insípidos de mulheres sem rostos. Gozos efêmeros entre coxas insossas.
Ergue a taça cheia, brinda à solidão, e traga toda a amargura contida naquele líquido que desce rasgando a garganta. Diz que tem gosto de vida e dá uma cusparada.
Logo mais o estômago protesta fazendo-o regurgitar pedaços daquela que o completava. Agora é um meio-homem. O sobejo no canto da boca é tratado com mais atenção que sua inabilidade de manter um relacionamento.
E num lampejo de meio-sobriedade, vê, sente, sabe, que o buraco em seu peito está mais largo, mais fundo e mais dolorido...

CÂNCER

Corrói o meu peito. Dói. Queima.

[Penso que é um câncer]

Minhas mãos tremem e suam.
A vista embaça.
As pernas fraquejam e me apóio na parede para não cair.

[Sinto que é um câncer]

E dentro de mim há uma explosão.
Me inclino.
Abro a boca e jorra quente: "Sim, eu estou com ciúmes!"

[É um câncer]

PALAVRAS

Antes, escrevia palavras de amor.
Hoje, escrevo palavras de dor.
Amanhã, escreverei apenas palavras.

GÊNESIS

No Princípio era o Verbo.
Depois fez-se a LUZ.
Aí alguém gritou:
"CÂMERA! AÇÃO!"

BEIJO

No final das contas, um beijo sem Amor só tem gosto de saliva.

ANIVERSÁRIO

Vai-te embora, Dia que insiste em não acabar.
O que ainda fazes aqui?
Sabes que não és bem-vindo.
Pois trazes em tua boca o gosto do passado.
E como um Judas sádico, beija-me
Fazendo lembrar-me daquela que amei
E que a Foice arrancou-a dos braços meus.
Tuas vinte e quatro badaladas ecoam em minh'alma vazia.
Dói.
Vai-te embora, Dia cruel.
Por que insistes em não acabar?

AMOR ADOLESCENTE

- Vontade de viver um amor adolescente...
- Mas você já tem trinta anos.
- Não disse que quero ser adolescente. Disse que quero viver um amor adolescente.
- Ah, quer namorar uma adolescente? Isso é pedofilia.
- Não quero namorar uma adolescente, seu chato!! Disse que quero viver um amor adolescente!!! Sabe, aquele lance de amar desordenadamente, achar que aquele amor será pra sempre e o mais importante de todos!! Essas coisas...
- Hum. Então, quer pensar e agir feito um idiota. É isso?
- Você ‘tá impossível hoje.

THE ONE

- Às vezes, fico me perguntando como será quando eu arranjar outra namorada...
- Que é que tem?
- Como é que vou arranjar outra se não consigo esquecê-la.
- Esquecer quem?!
- “Ela”.
- Que “Ela”?
- A “The One”!
- “A” “’The’ One”?
- ‘Cê entendeu. Não faz graça...
- Não existe “The One”, velho.
- Claro que existe!
- Não, não existe.
- E existe o quê?
- Um amálgama de todas as ex-namoradas.
- Hum... E a Patrícia?
- Não fala na Patrícia, p#rra!!
- Ainda dói?
- Dói!
- Pensei que ‘cê tinha dito que não existe “The One”.
- Sempre existe. Sempre.

OS OLHOS MAIS TRISTES DO MUNDO

- Você é feliz? – perguntou assim, à queima roupa.
A pessoa que levou o tiro-pergunta, que por sinal, não o conhecia – só estava sentada ao seu lado por mera casualidade da vida –, olhou para ele, para ter certeza s’ele falava com ela ou se falava sozinho.
Aproveitando qu’ela olhava pra ele, repetiu a pergunta:
- Você... É feliz?
Ficaram por um tempo se olhando. Um tempo dilatado. Que se estendia além do habitual.
A pessoa percebeu qu’ele tinha os olhos mais tristes do mundo. Depois se perguntou como saberia disso já que não conhece todas as pessoas do mundo. Mas numa súbita convicção, disse a si mesma que, se conhecesse todas as pessoas do mundo, com certeza, ele teria os olhos mais tristes de todas.
- Não sei. – respondeu cheia de hesitações.
- Eu não sou. – disse. - Você é feliz? – perguntou mais uma vez, ignorando a resposta anterior.
- Já disse, não sei. Acho que não é uma coisa constante. Tem dia que ‘cê ‘tá, e dia que não. Não dá pra ser o tempo todo. Eu acho.
- Eu não sou. – repetiu.
- E o que é que te faz infeliz? – perguntou e se surpreendeu consigo, pois detestava conversar com estranhos.
- Eu não sou infeliz.
- Mas você disse que--
- Disse que não era feliz. - interrompeu.
- E...?
- Não sou infeliz. Apenas me falta felicidade. Vejo casais de mãos dadas; crianças correndo atrás de borboletas ou de outro bicho qualquer; homens de negócios dentro de seus carros importados indo, às pressas, para alguma reunião; cachorros roendo ossos; religiosos indo para seus templos... Todos, ao seu jeito, dentro do que anseiam, sentindo-se felizes.
Ficou em silêncio por um tempo, depois continuou:
- Eu, não.
Os olhos mais tristes do mundo brilharam, mas não pareciam que iriam chorar. A pessoa teve medo que isso acontecesse, pois não saberia como deveria reagir.
Pensou que, se falasse uma frase de efeito, talvez, pudesse ajuda-lo. A frase não veio.
Continuaram em silêncio.

SIMPÁTICO

Sentado, ele olhava a paisagem pela janela do ônibus. Usava fones nos ouvidos.
Uma mulher que estava sentada ao seu lado, o cutucou e disse:
- Eu não ‘tou conseguindo ouvir.
Ele olhou para ela, fez um gesto para indicar que não tinha entendido.
Ela o cutuca novamente e repete:
- Eu não ‘tou conseguindo ouvir.
Tirou os fones dos ouvidos.
- O que a senhora disse?
- Que não ‘tou conseguindo ouvir.
- O quê?
- O que ‘cê ‘tá ouvindo.
- Isso deve ser porque os fones estão nos meus ouvidos, não? – ironizou.
- Sim, claro. Mas mesmo assim, sempre dá pra ouvir um pouquinho. Eu gosto de saber o que as pessoas ouvem.
- Ah. – disse sem mostrar nenhum interesse. - Acontece que a senhora não ‘tá conseguindo ouvir porque eu não ‘tou ouvindo nada. Na verdade, eu detesto música! ‘Tou apenas com os fones.
- E por que faz isso? – perguntou curiosa.
- Para evitar que as pessoas puxem conversa comigo. Odeio falar com desconhecidos. Não tenho paciência e nem gosto de parecer simpático.
Ela deu um sorriso forçado. Olhou à sua volta, viu um lugar vazio e foi sentar lá.
Ele colocou novamente os fones nos ouvidos e continuou a observar a paisagem pela janela. Em silêncio.

TIPO DE CARA

Sabe aquele tipo de cara pra quem ela sempre liga quando precisa de um ombro amigo pra chorar?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que, quando ela tem uma novidade, conta pra ele, pois torce MUITO por ela?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que, quando ela 'tá mal, ele tem as palavras exatas que vão consolá-la?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que ela adora ter por perto, pois a faz rir bastante?
Sou eu.

Sabe aquele tipo de cara que ela JAMAIS vai ficar porque ele é "legal demais"[!]?
Pois é... Sou eu. ¬¬'

O ENDEREÇO DOS SONHOS

Finalmente o avião aterrissa! Foi uma viagem longa e cansativa.
No aeroporto pego um táxi.
Encosto a cabeça no apoio do banco, digo o endereço ao taxista e perco-me em meus pensamentos... Penso nela, em nossos dias felizes – e nos tristes também –, em todas as promessas que fizemos um ao outro. Em tudo o que a gente poderia ter sido, mas não deu. Ela não quis ou eu não quis.
Olho pela janela do carro e aquilo tudo me parece tão longe da realidade. Da minha realidade.
Vejo pedestres, vendedores ambulantes, bichos, todos disputando um pedaço da calçada. Uma eterna briga por seu território.
Pergunto-me se eles são felizes...
E eu, sou feliz?
Sou tirado dos meus pensamentos quando o carro para. Então, percebo que estou em frente a casa dela. Dei o endereço errado ao taxista. Ele está olhando pra mim, diz quanto custou a corrida e estende a mão para receber o dinheiro.
Digo que me enganei. Que aquele não é meu endereço – nunca foi meu endereço! Talvez, em meus sonhos – e desta vez falo o correto.
Ele dá partida e o carro sai. Penso em olhar para trás, mas me contenho. Porém, antes do carro entrar na rua seguinte, olho para trás.
Nunca deixei de olhar para trás.

O QUE DIZER?

Junto com o gozo, veio – meio desgovernado – um “Eu te amo!”. Até ele se surpreendeu por falar isso!
Silêncio.
Depois, ela começou a mover os lábios. Ainda não sabia ao certo o que ia responder.
Um barulho na fechadura. Passos. Os pais dela chegando.
Rápido tiveram que se vestir e fazer parecer que nada faziam.

Ela nunca se sentiu tão feliz por seus pais aparecerem!

VIDA DE CINEMA

CENA UM:
Bar lotado. Ele se aproxima d’Ela e oferece-lhe uma bebida. Ela aceita. Os dois bebem e riem bastante.
CENA DOIS:
Ele está sobre ela. O lençol cobre seus corpos. Transam devagar. Ao fundo, vemos através da janela a chuva cair.
CENA TRÊS:
Ele e Ela, diante do padre, dizem “Sim, eu aceito!”.
CENA QUATRO:
Ele e Ela, diante do juiz, dizem “Sim, eu quero me separar!”.

EU TE AM-- #gasp-gasp#

- Prometi a mim mesmo que não digo mais “eu te amo!” pra mulher nenhuma.
- Mas... E se aparecer a mulher da sua vida?
- Ela vai ter que conviver com isso. Ou melhor, sem isso.
- E se aparecer aquela vontade incontrolável de falar isso pra ela?
- Seguro na boca, engasgo, e engulo.
- Não acha qu'é um pouco cruel?
- Ela se acostuma.
- ‘Tou falando qu’é cruel com você mesmo.
- Nada. Eu me acostumo.

TEMPO...

Mas o tempo (sempre ele!) não compreende a nossa necessidade
"preciso de mais um pouco de tempo"
e passa, passa, passa...
E quando a gente menos espera,
já foi.

DESABAFO DE UM TÍMIDO

Sempre fui um tímido. Nunca consegui evitar isso.
Mas naquele dia... Não sei bem o que me aconteceu! Senti-me corajoso. E quase sem conseguir ordenar as palavras disse à Dorinha – o grande amor da minha vida desde os meus seis anos – o quanto gostava dela. Que a amava! Na verdade, desde sempre!
Ela ficou mascarada. Encheu-se de si à medida qu’eu mais e mais a exaltava.
Com o tempo, aproximei-me cada vez mais e fazia visitas regulares à sua casa... O golpe é que, como sempre fui uma boa pessoa, o pai dela e todos na casa, gostavam muito de mim. Até consegui permissão para levá-la ao cinema! E foi aí que começou a minha desgraça... Ao sairmos do cinema, topamos com um casal. Depois disso, quase que como efeito de prestidigitação, Dorinha foi ficando murcha e, por fim, quando chegamos a sua casa, confessou que amava o sujeito lá. Casado! Vê! Falou que, sendo ou não casado, era dele que gostava e que não queria me namorar. Então, disse-me “adeus”! E apesar da dor, compreendi e fui atrás de viver minha vida.
Dela, soube dia desses que Seu Osmany [um vizinho] a viu de braços dados e assim, assim com o Fulano.
Enfim. Minha vida seguia normalmente até que, há pouco, o pai da Dorinha chegou e, aos gritos de “engravidaste minha filha, patife”, deu-me um tiro na cabeça.
Morri.


*Texto inspirado em texto – sem título – de Nelson Rodrigues do Livro “Pouco Amor, Não É Amor”.

AH, O AMOR!

E, nada sabendo sobre o amor
Estendeu a mão para ela e disse:

- Vem comigo, vai dar tudo certo!

Ela foi.
Não durou três meses.

AMOR DEMAIS

Roberto estava absorto em seus pensamentos quando viu Marco, em um bar, do outro lado da rua.
Resolveu ir ter com o amigo.

- Marco?
- Roberto?! Ô, rapaz, finalmente alguém pr’eu conversar! Senta aí, amigo.
- O que aconteceu?
- Nem te conto... ‘Tou completamente apaixonado... Pela Rosa.

Roberto parecia não saber o que deveria dizer, então, a primeira reação foi levantar a mão e pedir duas doses ao garçom.
Depois, sentenciou:

- É, rapaz, coisas do coração... – tentou dar alguma profundidade a essa frase.
- O pior é qu’eu penso nela todo instante!! E o nome dela parece um sino badalando na minha cabeça: “Bianca, Bianca, Bianca...”
- Ô, mas não era “Rosa”? – perguntou confuso.
- Quê?! ‘Tá louco, homem?! Bianca é a mulher da minha vida!
- Hum. – Roberto já não sabia o que dizer.
- Sei não, mas... Acredito que fomos feitos um para o outro!
- Hum.
- Quando eu vi a Natália a primeira vez.
- Mas. – interrompeu – E a Bianca?!
- ‘Cê ‘tá prestando atenção em alguma coisa qu’eu ‘tou dizendo?! ‘Tou falando de amor à primeira vista, meu caro! Ah, Natália! – suspirou.
- Hum. – Roberto se perguntava se aquela conversa ‘tava mesmo acontecendo.
O garçom ainda nem tinha trazido sua bebida e ele achava que já deveria parar.
- E você, já amou alguém de verdade, Roberto?
- Bem...

Mas Roberto foi interrompido pelo garçom, “Licença, as bebidas”.
Marco agarrou seu copo.

- Vamos brindar ao amor, meu querido amigo! – ergueu seu copo. - E às mulheres de nossas vidas. À minha Berenice! E à sua...?
- Peraí, Marco! – protestou Roberto com seu copo erguido. - Isso é alguma brincadeira? – perguntou sem esconder a irritação.
- O que, rapaz?! ‘Cê não tem a quem brindar? Desculpe a minha insensibilidade. É que o amor me deixa assim... Sentimental demais. E só quero falar nela: “Ruth isso; Ruth aquilo; Ruth-não-sei-oquê!”

Roberto olhava para Marco, completamente abobalhado.
Ficou por um tempo observando o amigo para ver se em algum momento cairia na risada e faria algum gracejo indicando a grande piada.
A risada veio. Para o bem da verdade, foi uma boa e ressonante gargalhada.

- O amigo me perdoe, mas ‘cabei de lembrar de uma situação muito engraçada com minha amada! Estávamos, Maria Sofia e eu, passeando pelo parque, quando.

Mas Roberto não prestava mais atenção. Viu que dali não viria nenhuma pilhéria. E percebeu que, ao citar o nome de cada mulher, os olhos de Marco brilhavam. Depois se censurou por querer encontrar lógica naquele insólito diálogo. E pensou: “Brilham também, os olhos dos bêbados e dos loucos!”
E foi tirado do seu devaneio com a gargalhada – ainda mais alta – de Marco.

- Não foi engraçado? – perguntou naquele tom dos que esperam uma resposta positiva.
- Sim, sim... – respondeu e ensaiou um meio-sorriso.
- O amor... Ai, ai, o amor...

E lá estava ele com o tal brilho no olhar.

- Verdade. – disse, sem nenhuma ideia do que concordava.
- Isso mesmo.

Roberto estava armando a deixa para encerrar aquele encontro, quando Marco engatou:

- Quando conhecer Adriana, vai entender porque só falo nela!

Não aguentando mais tanto absurdo, Roberto levantou-se e foi ao ponto:

- Marco, sinto muito, mas tenho compromisso. Preciso ir.
- Claro, claro! Eu também preciso ir, vou à joalheria. Comprarei uma aliança e amanhã mesmo, peço Letícia em casamento.

Roberto só esboçou um sorriso.

- Que bom. – foi o máximo que conseguiu dizer.
- Boníssimo! Bo-níssimo!

Marco de um forte abraço em Roberto.

- Sempre muito bom conversar com você!

Gritou ao garçom “coloca na conta” e saiu todo sorridente e sussurrando “ai, o amor!”
Roberto ficou ali parado vendo o amigo ir embora. Refletiu sobre toda a loucura que vivenciou há pouco...
Sorriu e disse para si: “Esse daí, ama demais!”

SONHAR, SONHAR...

Levantou-se de supetão da cama. Respiração pesada e suando muito.
A esposa acordou.

- Teve um pesadelo, amor?
- Aham.
- Relaxa, foi só um sonho. Deita. Vem dormir, vem. - disse tentando acalmá-lo.

Mas era justamente dormir o problema! Sabia que, se dormisse novamente, teria o mesmo sonho: Sonharia com aquela que sempre foi o grande amor da sua vida, lhe abandonando mais uma vez.

NÃO SERIA MAIS FÁCIL?

Puxou a cadeira pra ela sentar.

- Então, me fale mais um pouco sobre você.
- Bem, eu estudo Advocacia. Pretendo ser juíza.
- Ah, legal!! – interrompeu. - Eu estudo letras... Quero ser escritor!
- Não seria mais fácil escrever um livro?

UM NOME PARA CHAMAR DE MEU

- Moça, um momento, ‘cê escreveu seu nome errado.
- Onde?
- Aqui, ó. Colocou um... Como chama mesmo esse negocinho?
- Apóstrofo.
- Esse daí não era o que seguia Jesus?
- Não, esse [na verdade, “esseS”] era “apóstolo”. Esse daqui é “apóstrofo”.
- Ah, ‘tá. Bem, em todo caso, ‘cê colocou um a-pós-tro-fo no seu nome.
- Sim. E não ‘tá errado. Meu nome é assim mesmo.
- “L’aura”?!
- É.
- E como pronuncia?
- “Laura”.
- Do mesmo jeito como se não tivesse?
- É
- E por que tem, s’é a mesma coisa?!
- Coisa dos meus pais.
- Humm... Sabia que seu nome pode dizer muito de você, da sua personalidade?
- Acho meio difícil, já que não fui eu quem escolheu esse nome.
- Ah, mas ‘cê tem um segundo nome, “Maria”. Poderia usar esse, mas prefere o “L’aura”.
- ‘Tou habituada a ser chamada por esse nome desde sempre.
- Sim, mas e a adolescência? Foi a sua chance de se revoltar contra todos! Principalmente contra tudo que seus pais lhe deram.
- Moço, nunca vi motivo pra me revoltar contra meus pais. E eu gosto do meu nome do jeito qu’ele é.
- Viu? O seu nome diz muito da sua personalidade.
- O senhor poderia, por favor, me entregar o canhoto de comprovação de inscrição? ‘Tou apressada.
- Aqui ó.
- ‘Brigada!
- De nada e até mais... Maria!

RAPAZ COMUM

O sujeito tinha um rosto tão comum, mas tão comum, qu'ele se parecia muito com um Fulano que era a cara de outro Fulano!

GRANDE ADERBAL

E lá estava o Aderbal, bêbado, largado na calçada dela.

- Alice! – gritava com a típica voz de bebum.

Os vizinhos já estavam em suas janelas assistindo ao espetáculo.

- Alice! – continuava o insistente Aderbal.
- Para com essa zuada, papudim-véi! – gritou um que passava.
- Vai te aquietar, pudim de cana! – aproveitou o embalo, outro.

Mas Aderbal estava surdo à pilhéria dos outros. Só queria saber de Alice.
Ela o deixara há exatos quatro meses, justamente, devido a esse – digamos – problema de Aderbal com bebida. Não podia beber que começava a bagunça! E das grandes! Mas era um rapaz de bem. Seu mal era a maldita da bebida.
Para ela, ele era “águas passadas”. Por sinal, já recebia visitas de um jovem que, sendo advogado, tinha todo prestígio com a família da moça.

- Aliceeee...! – forçou até a voz sumir.

Dentro de casa todos pareciam ter se acostumado com aquela cena. Ela vinha se repetindo desde o término deles.
A família, por ter uma simpatia por Aderbal, nunca chamou a polícia – apesar de tudo, era um rapaz de bem –, preferiam esperar ele cansar e ir embora.
No entanto, coincidiu de, naquele dia, Alice receber a visita do jovem advogado. E o mesmo estava impaciente com aquela gritaria.

- Que absurdo! Isso é um despautério. – falava o jovem, de modo teatral.
- Calma. Ele é assim. Mas já, já, cansa e vai embora.
- É inadmissível algo como isso! Seu pai é um homem de idade. Não merece estar passando por isso. E nem você, pois é uma moça de família. – pensou em repreendê-la por ter namorado tal pessoa, mas desistiu. Não seria prudente tocar nesse assunto.

Alice corre até a janela e grita:

- Aderbal, não me faz mais vergonha. Vai embora!
- Volta pra mim, meu amor! – insistia o esperançoso pinguço.

Sem paciência, ela bate a janela e volta pra sala.
Aderbal continuava com suas lamúrias:

- Alice, eu sei que ‘cê ‘tá de paquera com um almofadinha. – esta última palavra, não foi compreendida por todos, pois a voz estava embargada pelo álcool e algo de um futuro pranto. - Mas eu te perdoo, porque te amo!
- Já chega! Não vou mais aturar nem mais um pio desse sacripanta! – sentenciou o advogado com ares de juiz.
- Por favor, não! Acho melhor você não se meter com ele. Ele ‘tá bastante alterado.
- Aquele?! Aquele ali nem fede, nem cheira. – gracejou. Mas gracejos não combinavam com ele. Tinha dentes perfeitos demais dentro de um sorriso muito certinho e, sem contar, uma voz muito empolada.
- E se você se machucar? – perguntou à guisa de dama que vê seu cavaleiro prestes a ir para um duelo.
- Não se preocupe, ficarei bem. Peço licença para tirar meu paletó. – outro gesto teatral.

A família toda tentou dissuadi-lo, mas o jovem parecia determinado a mostrar quem era o novo dono do coração de Alice.
Abriu a porta e viu o pobre Aderbal, de gatas, numa tentativa infrutífera de levantar-se.

- Vai-te embora, alcoólico desordeiro!
- Eu vou é quebrar a tua cara, macho. – revidou o oponente finalmente ficando de pé.

Aderbal investiu contra o advogado, mas o murro passou longe. Este, por sua vez, também empreendeu um soco, mas, para a sorte do pé-de-cana, estar cambaleando foi vantajoso.
Murro aqui, murro ali, e ninguém era atingido. Mais parecia uma dança. Estranha, diga-se de passagem.
Aderbal, um bêbado, desordeiro, bom rapaz e apaixonado!
Advogado, um almofadinha que ‘tava mais valente que um siri dentro da lata.
Cada qual a seu modo, querendo provar que era merecedor do amor de Alice.
Esta, por sua vez, pedia para o advogado desistir daquela peleja, pois Aderbal não valia a pena. Como ele mesmo dissera, “nem fede, nem cheira”. E também gritava para Aderbal ir embora.
E mesmo com tanta súplica, não a ouviam.
Finalmente, os dois se engalfinharam. Ninguém sabia quem era quem de tão enrolados que estavam. De repente, tombaram um pra cada lado.
Do lábio de Aderbal, corria um filete de sangue.
Da testa do advogado parecia que as comportas de uma represa tinham arrebentado.

- Ai, meu Deus, meu querido! – gritou Alice, e correu em socorro.

Sentindo o conforto e o calor daquele colo macio, Aderbal sussurrou:

- Alice, eu sabia que você ainda me ama!

SONETO DO AMOR CABAL

Cheiro de suor, bebida e esperma
O quarto é pequeno e sufocante
Deitada na cama me espera
Minha mais sincera amante

Me recebe com ar de candura
Com força, beijo minha amada
Seu corpo, invado sem mesura
Gemendo, ela mexe a cada estocada

Seu sexo me deixa extasiado
Dentro dela, fujo de toda dor
Após o gozo, permaneço deitado

Sem cerimônia, ela cobra seu valor
Aponta para a porta ao lado
“’Cê precisa ir, tenho mais clientes, meu amor.”

CONFLITO

Para ler ouvindo "Nocturne Op. 9 nø 2" de Chopin:
http://www.youtube.com/watch?v=YGRO05WcNDk




- Você sempre estará bem guardado no meu coração. – e assim, ela desligou.

Ele permaneceu sentado olhando para o telefone. Pensou se aquele era o momento de apagar o contato dela da agenda. Depois “espanou” a ideia como quem afugenta um inseto. “Uma muriçoca”, ela diria.
De nada adiantaria, pois ele tinha aquele número impregnado nele assim como o perfume dela, o sorriso, o jeito que arrumava o cabelo e tantas outras coisas.
Quando finalmente conseguiu levantar só tinha em mente um único lugar para ir: um bar.
Nunca recorreu à bebida para “resolver” problemas, mas, tinha a certeza, que só a bebida acalmá-lo-ia.
Como a pessoa sensata que era, começou elencar todos os prós e contras daquela relação e chegou ao cruel resultado de um empate.
Tanto a amava, quanto a odiava. Tanto precisava dela, quanto queria viver só.
A dor, sua velha companheira, estava lá, fazendo-o remoer toda possibilidade de felicidade não vivida. Queixar-se de tudo que tentou e ela não permitiu. Arrepender-se de tudo o que ela quis e ele negou-lhe.
“Vou-me embora desta cidade!”, pensou num rompante como única possibilidade de fuga do sofrimento.
“De que adianta ir embora daqui, se carrego comigo meu coração!”, constatou derrotado pela certeza de um longo e doloroso sofrimento.
Lembrou mais uma vez de seu sorriso e perguntou-se se ela estaria sorrindo naquele momento... E foi quando teve a revelação: tudo o que mais queria, era a felicidade dela. Portanto, se ela – em algum lugar – estava sorrindo e feliz naquele instante, ele também deveria estar feliz.
Ergueu o copo, brindou à felicidade dela, tragou a bebida – que lhe pareceu insípida –, pagou a conta, levantou-se e saiu.
E sua dor, que nunca o deixou, o acompanhou pela rua já vazia...