terça-feira, 2 de maio de 2017

RIFLE

Quando começou a tocar os primeiros acordes da melodia, rapidamente as lágrimas se formaram em seus olhos, e antes mesmo da canção chegar ao segundo verso, elas já rolavam pelo seu rosto.
Gostava daquela canção muito antes de conhecê-la. No entanto, foi ao lado dela que ganhou um sentido.
Não que significasse algo da história deles. Não era isso. Era mais aquele lance em que os astros se alinham e, pah!, de repente, a música abarca tudo. Do princípio até o fim.
E, agora, sem ela em sua vida, surgia outro significado.
Ouvindo e sofrendo com cada palavra daquela balada, ele também queria ser jovem e fugir da cidade; enterrar os sonhos sob o chão; beber até morrer.
Queria uma arma de caça para abater a maior das feras: a dor.
Se estivesse ali, ela responderia que a maior das feras era ele mesmo e a sua podridão. Ele gritaria – pois era o que sempre fazia – tentando convencê-la do contrário, porém, lá dentro dele, assentiria. Concordaria com tudo e se declararia o rei das feras.
E, assim, estava aberta a temporada de autocomiseração.
Sentiu-se no mais absoluto clichê: a música tocando, ele chorando, o copo de bebida na mão.
Chuva... Faltava chuva. Para ser um clichê total, precisava de um temporal caindo lá fora. Porém, aquela época do ano era sempre seca. Não iria chover. E deus algum iria atender esse capricho dele para alimentar ainda mais o seu espetáculo de vitimismo.
Queria chuva e como não tinha, chorou por isso. Chorou porque a bebida estava acabando. Chorou por causa da canção. E, por fim, chorou porque sentia saudade dela.
Um completo e medíocre clichê.
Conversou mentalmente com ela, tentou justificar o injustificável. Pediu desculpa. Mandou se foder. "Maldito elefante!", gritou. E cantou e bebeu e chorou.

Com a música chegando ao final, ele já se preparava para pressionar o repeat. Precisava chorar um pouco mais.

sábado, 1 de abril de 2017

JESUIS

ESTE É O EVANGELHO DE JESUIS.
Sim, é "Jesuis" mesmo! Com um "i" depois do "u", por erro de pronúncia do pai e de compreensão ou bom senso do tabelião no ato do registro. E assim ficou.
Jesuis até gostava. Se sentia especial, apesar do seu nome ser parecido com o nome do Filho do Mandachuva, era único ao mesmo tempo.
Gostava de pensar que guardava outras semelhanças com o Dito Cujo: era magro, alto, barba e cabelos longos. Negro como a noite, adorava dizer que o Outro também não era branco e muito menos tinha olhos azuis. E sempre que entrava nessa discussão com alguém, dizia: "Eu sei o que 'tou falando, rapá. Carrego um nome parecido porque sou chegado do Cara! Ele era negão, sim!", daí, soltava a gargalhada mais estrondosa que podia.
No entanto, Jesuis, diferente do quase homônimo, não resistia à tentação alguma. Ao menor sinal de desejo, se jogava. Se lambuzava e repetia.
Talvez, tivesse só mais uma semelhança com o Escolhido: Jesuis levou muitas mulheres e homens ao Paraíso também.
O meio é que pode ser considerado controverso: Diziam que tinha um pau enorme e grosso e sabia fazer um bom uso dele. Impossível não chegar ao Paraíso depois de provar do que o Cristo Negro oferecia.
Sem distinção de gênero, não importava quem, o que ele gostava mesmo era do prazer que sentia e proporcionava. Em alguns casos, gostava também do dinheiro que recebia de mulheres e homens gratos pelas horas que passavam com o tal.
***
Voltando 33 anos, na noite de Natal, nascia Jesuis - daí o seu nome. Só não foi entre cordeiros, vacas, pastores e reis magos. E sim, ratos, baratas, mosquitos e bem possível, sapos. Jesuis nasceu numa palafita. Mal sua mãe sentiu as dores do parto e lá estava o infante estreando no mundo. Sem paciência para esperar.
Foi o único sobrevivente entre outras crianças que nasceram à época. Não teve Herodes para mandar matá-las. A fome, o cólera e tantas outras doenças e situações se encarregaram disso. E ele, resistiu, mostrando que seria um sobrevivente. E assim levaria a vida, sobrevivendo.
Rápido como pensamento, o garoto corria pelos pedaços de madeira que ligavam as casas umas às outras e que levavam à terra firme com uma desenvoltura quase assustadora.
Isso o ajudou a fugir das surras constantes do pai quando chegava bêbado em casa; e as da mãe, quando ele ia mal na escola. Por sinal, abandonou tal instituição muito cedo. Não era lugar para ele.
Muito cedo também, percebeu que ia ter que se virar. Ou arranjava "uns corre" pra si ou ficaria para trás.
Contra todas as estatísticas, foi crescendo e sobrevivendo.
Nunca se associou diretamente ao tráfico. Mas transitava pelo Movimento quando necessário.
Preferia sempre pelos pequenos delitos. Coisas com que poderia lidar sozinho e sempre passar despercebido. Alguns pequenos golpes também eram bem-vindos.
Qualquer coisa que fosse considerada ilícita, certeza que Jesuis tinha algum envolvimento.
Porém, de uns tempos para cá, ele vinha diminuindo a frequência dos seus crimes. Estava apaixonado. Não se sabe se por obra do destino ou do seu Xará, o pilantra conheceu uma moça chamada Madalena, e já havia se encarregado de fazer da mesma a mãe do seu futuro rebento. E, por isso, até havia arranjado um emprego em uma oficina de motos.
No entanto, foi a proposta de um sujeito com nome de anjo que trouxe Jesuis até aqui. Não, não foi Lúcifer.
Gabriel.
O Gabriel disse que seria grana fácil. Normalmente, Jesuis teria recusado, pois sempre suspeitou de grana fácil. Os seus pequenos golpes e delitos, apesar de pequenos, eram muito bem arquitetados. Ele prezava pelo empenho. Grana fácil, para ele, era sinônimo de problema à vista.                       
No entanto, o Anjo apareceu no pior momento para Jesuis. Com Madalena prestes a dar à luz, Jesuis queria sair das palafitas. Não queria que o seu pequeno e mais sincero milagre nascesse e crescesse nas mesmas condições que ele.
Então, topou o projeto: roubar a casa de um figurão qualquer. Muito dinheiro. Grana fácil.
Chamou dois companheiros para a empreitada e foram.
Mal entraram na casa e um alarme silencioso disparou e todo entorno da residência já estava cercada por seguranças. Com o figurão e a família trancados em um quarto do pânico não daria nem para barganhar as próprias vidas com reféns.
Os seguranças particulares - todos policiais de folga - eram táticos e rápidos. Entraram na casa, desarmaram os invasores, surraram-nos e os levaram para um matagal.
Os bandidos sequer viram o dono da casa.
Gabriel não soube do fim dos bandidos e os mesmos não tinham muito a dizer sobre ele para os seguranças. Apenas o nome.
De nada servia.
Agora, Jesuis jaz no chão com um tiro no meio da testa, o sangue espalhou por toda cabeça coroando o Rei dos Pilantras.
Mas ele não está sozinho. Gera, o segundo ladrão, está caído ao seu lado esquerdo.
Agora chegou a minha vez, termino o Evangelho de Jesuis segundo eu mesmo, Dimas, o terceiro ladrão. E logo estarei caído ao seu lado direito e, ainda hoje, estarei ceando com ele no Reino dos Céus dos Pilantras.

Amém.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

BIDU: JUNTOS

MAIS UMA GRAPHIC MSP pra encher os olhos! Seja pela beleza, seja pela emoção que causa! Trabalho belíssimo de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho com os personagens de Maurício de Sousa.
Se na primeira Graphic do Bidu - trabalho também realizado pela dupla citada acima -, nós acompanhamos os caminhos (por sinal, é o nome que batiza a HQ) que os dois percorreram até se encontrar, em "Juntos", veremos os dois, juntos, porém, separados (rs), cada um ao seu modo, tentando se adaptar a essa nova condição que une os dois: dono e pet (embora, eu sempre acho qu'é o contrário, o pet é qu'é o dono da gente. rs).
O Franjinha tem um papel maior nesta HQ. Vemos o seu lado científico - sua maior característica - em prática numa tentativa determinada de conquistar e "educar" o cachorrinho, porém, sem perder a beleza de ser criança e, às vezes, agir como uma.
Bidu, também do seu jeito, tenta viver essa nova vida, não sem antes ficar triste e bravo por certas condições impostas por Franjinha a mando de sua mãe que a muito custou aceitou o bicho, mas tem suas reservas devido o comportamento "rebelde" de Bidu.
Como sua antecessora, Caminhos, Juntos utiliza imagens para dar fala ao Bidu e faz isso com muita competência deixando pra gente a interpretação.
Algumas participações especiais dão um toque especial que nos faz suspirar.
Não sei se já ter convivido com um animal de estimação fará alguém apreciar mais essa graphic. Ela, por si só tem tudo para ser aplaudida. Acredito que basta ter sensibilidade. Afinal, é uma bela história que, como quase todas HQs da Maurício de Sousa, fala sobre amizade, amor, responsabilidade e as dificuldades que temos sobre a vida daqueles que nos cercam e que só conseguimos seguir em frente se formos juntos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

ANO 2000


Éramos apenas crianças no final dos '80. Mas, naquela época, já ansiávamos desesperadamente pelo Ano 2000!! Sabíamos que, quando esse ano chegasse, teríamos máquinas/robôs sencientes; a cura do câncer e outras doenças terríveis; algum contato ou até mesmo relações diplomáticas com seres extraterrestres; o fim da fome no Mundo e, principalmente, existiriam os carros voadores!
Tudo o que eu e meu irmão mais novo queríamos era ver carros voadores. Aliás, mais do que ver, nós queríamos andar (voar?) em carros voadores!!!
Ainda teríamos que atravessar toda década de '90 para poder ter isso. O que, aos olhos de uma criança, essa espera podia ser comparada à eternidade. Mas sabíamos que valeria a pena! Afinal, qualquer sacrifício seria válido pelos carros voadores!
Portanto, com isso em mente, suportamos as músicas chatas, a programação imbecil dos meios de comunicação, as aulas infrutíferas na escola (em busca pelo tal do X que nunca era encontrado por mim nem pela maioria dos meus colegas!) e até comíamos os vegetais que nossos pais nos obrigava. Tudo isso, sempre de olho em nossa terra prometida. Quanto menos resistíssemos, mais rápido o tempo passaria.
Todas as noites, antes de dormir, meu irmão e eu, repassávamos quais seriam os métodos aplicados pelos cientistas/engenheiros/mecânicos para conseguir fazer um carro voar. Nossas hipóteses eram baseadas na Literatura Sci-fi que tínhamos acesso e na imensa imaginação que dispúnhamos. Mas não importava se fosse "batendo asas" ou com um balão preso ao teto. Desde que fosse um carro, mais pesado do que o ar, voando.
Nossos amigos também conversavam conosco sobre isso, porém, nenhum deles partilhava da mesma empolgação que nós dois.
Na metade dos anos '90, papai nos fez uma surpresa. Estávamos em férias escolares e a viagem daquele ano, seria feita de avião.
Não éramos pobres, no entanto, naquela época, para custear uma viagem de avião com toda a família, ele teve que se desdobrar em horas e mais horas extras. Tanto antes da viagem, como depois dela.
Chegamos no aeroporto e ele não parava de olhar pra gente e sorrir. Provavelmente, esperando uma reação nossa. Talvez, uma cara de fascínio ou algo do tipo. Inicialmente, não fizemos. Mas quando percebi que ele nos olhava desesperadamente e não parava de nos fotografar, entendi o que ele esperava de nós, cochichei para o meu irmão e começamos a nos mostrar bem felizes porque íamos andar de avião.
Não estávamos felizes.
O ponto é, nós não tínhamos o tolo sonho de voar. Não era isso. O que queríamos era um carro que voasse. A função do avião já era voar. Ele não fazia menos do que sua obrigação. Mas um carro não!
Sem contar a parte fantástica de algo compacto (em comparação a um avião, por exemplo) que anda pelas ruas, de repente, alçar voo.
Fomos; aproveitamos nossas férias; voltamos. Papai com vários rolos de filme para revelar, sendo a maior parte deles, usados nos aeroportos - de ida e volta - e dentro do avião. Teríamos a recordação daquele incrível momento em nossas vidas, para sempre!, segundo papai. Nunca me importei com essas fotografias.
Os '90 chegavam ao fim e já não éramos mais crianças, mas continuávamos sonhadores. Não tão sonhadores a ponto de acreditar que o tal carro voador viria. Mesmo assim, isso não nos impedia de manter esse desejo.
***
Dezembro de 1999, dia 31. Finalmente o Ano 2000 estava realmente próximo!
Meu irmão e eu combinamos de passar a virada do ano juntos. Na verdade, foi um juramento de quando ainda éramos pequenos. Mesmo sabendo que não teríamos todas as tecnologias esperada, principalmente o carro voador, não quebramos o juramento.
E então o grande momento chegou e começou a contagem regressiva.
10
A gente se olhou.
09
Rimos.
08
Mas foi um riso nervoso.
07
Olhamos pro céu.
06
As pessoas ao nosso redor pareciam bem felizes.
05
Nós dois, não.
04
Mesmo assim, erguemos nossas taças.
03
Como se fosse ensaiado, nossos olhos se dirigiram para um carro que estava estacionado próximo da gente.
02
Não precisávamos dizer nada, mas ver aquele carro - que não podia voar - nos deu uma certeza de que o futuro que tanto discutimos em nossa infância, nunca chegaria.
01
Olhamos para o céu mais uma vez.

Silêncio.
Os fogos de artifício, apesar de brilharem no céu com toda sua magnitude, não produziram som algum. Não houve gritos de "Feliz Ano-novo!".
As pessoas começaram a se olhar sem entender o motivo do silêncio. E se desesperaram quando perceberam que não conseguiam ouvir umas as outras. Era como se qualquer som fosse impossível de ser reproduzido. Estávamos num vácuo absoluto.
Então começamos a sentir uma coisa. Um tremor.
O chão vibrava. E nossos corpos vibravam também.
De repente, veio o grande "bum". Luz, som, tremor, fogo, água, o chão se abrindo... Tudo no mesmo instante. E aí, o tempo se dilatou, se encolheu e se engoliu e expandiu!! Ficou tudo confuso.
Depois dessa catástrofe, quase toda vida foi varrida da face da terra.
Os poucos de nós, seres humanos, que sobrevivemos, nunca conseguimos descobrir o que realmente aconteceu.
Principalmente porque, no início, não conseguíamos ouvir. Surdez temporária para alguns, e permanente para muitos. E também porque o choque foi muito grande. Ninguém queria mais falar. O único som que a grande maioria emitia era apenas choro.
Muito depois, quando as pessoas conseguiram voltar a se comunicar umas com as outras, disseram que foram experimentos com bombas; outros, que os russos lançaram foguetes pelo Mundo; outros, que foi um grande terremoto; ou era a Terra finalmente cobrando com juros todos os mal tratos que sofreu; que havia sido castigo de alguma divindade vingativa e mimada; e mais tantas outras suposições. O fato é que nenhuma delas conseguia fazer mais sentido do que a outra. Todas improváveis e igualmente absurdas.
Os sobreviventes viraram nômades. Ninguém ficava muito tempo no mesmo lugar. Ou não aguentavam a paisagem desoladora, além do mar de corpos espalhados por todos os lugares (era tanta gente morta que se tornou impossível enterrá-las), ou porque o próprio local não era amistoso para tentar levar a vida, terra infértil, sem água, sem animais.
Apesar de tudo, o nosso sentimento de coletividade ficou mais forte. Nos tornamos mais empáticos. Preocupados com a vida humana.
Sempre que alguém encontra outro alguém pelo caminho, essa pessoa é prontamente inserida no grupo. Não deixamos ninguém para trás. Juntos, nos tornamos, se não fortes, mas pelo menos, menos fracos.
Falamos e escutamos pouco ou nada. Mas com um único olhar, entendemos a necessidade do outro.
Atualmente, não temos mais calendário. Vivemos cada dia e pronto. O futuro não existe.
Porém, mesmo que não tenhamos nos tornado bárbaros, neste momento da minha vida, eu sempre desejo algo que me fizesse lembrar como era antes disso tudo acontecer.
As roupas, a programação idiotizante da TV, as músicas estúpidas, meus livros, filmes e séries de ficção científica, as comidas, meu professor de Matemática nos exigindo que encontrássemos o X... Queria qualquer coisa que eu não tinha mais. Menos as fotografias da viagem de avião. Delas, não sinto falta.

O meu irmão... Bom, ele ficou no Ano 2000 para sempre. O futuro que ficou no passado.
Todas as noites, quando durmo, vejo carros voadores. Centenas, milhares. E dentro de um deles, estamos meu irmão e eu, rindo muito, em um momento de felicidade explosiva, e voamos sem nenhum destino. Mas ir para algum lugar não importa, no sonho, o nosso sonho se tornou realidade.

Eu nunca quero acordar.ANO 2000
Éramos apenas crianças no final dos '80. Mas, naquela época, já
ansiávamos desesperadamente pelo Ano 2000!! Sabíamos que, quando esse
ano chegasse, teríamos máquinas/robôs sencientes; a cura do câncer e
outras doenças terríveis; algum contato ou até mesmo relações diplomáticas
com seres extraterrestres; o fim da fome no Mundo e, principalmente,
existiriam os carros voadores!
Tudo o que eu e meu irmão mais novo queríamos era ver carros
voadores. Aliás, mais do que ver, nós queríamos andar (voar?) em carros
voadores!!!
Ainda teríamos que

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

PÉTALAS


Pétalas conta a história de uma família de raposas cuja vida é transformada pela chegada de um estranho visitante durante um rigoroso Inverno.
Financiado pelo Catarse, Pétalas é uma HQ one-shot, rápida e de leitura fácil, mas de uma delicadeza IMENSA que te faz refletir sobre amizade, empatia, amor ao próximo, luto, esperança e mais um monte de coisa bonita. Como disse o queridíssimo IG Quadrinhos Arretados "é um carinho em forma de HQ".
Totalmente sem diálogos (escrito), essa HQ te ganha na beleza das ações.
E, sem dúvida, a maravilhosa arte e cores do Gustavo Borges e da Cris Peters respectivamente, te levam fácil para esse belíssimo lugar onde a esperança há de brotar mesmo no frio mais desolador.